De repente em Junho de 2022 no bar Rocablanca em Madrid, entre croquetas de Cabrales y cervesas 1906, comecei a desenhar cabeças, muitas cabeças, como se nunca tivesse visto uma cabeça na vida. Todas aquelas pessoas tinham um interesse irresistível, a minha mão não parava, as páginas dos cadernos enchiam-se de linhas de um modo compulsivo. Cabeças de perfil, de frente e três quartos, cabeças semiocultas por pilares que se transformavam em máscaras, todas simplificadas e acentuadas pela velocidade dos gestos da minha mão. Essa estadia de quatro dias na capital espanhola permitiu-me iniciar a série que continuo a desenvolver nas pastelarias e restaurantes que frequento.
Sentado estrategicamente a um canto, observo da minha mesa a chegada dos clientes e avalio o seu potencial de tradução gráfica. O meu interesse pelas suas cabeças centra-se na sua infinita variedade e na informação que dão ao meu desenho. A única coisa que partilho com os meus modelos involuntários é o espaço em que por alguns minutos coincidimos e uma apreciação por comida, café e bebidas alcoólicas. Raramente interajo, não tenho nada a dizer-lhes, apenas o desenho me interessa. Algumas pessoas percebem que as estou a desenhar, embora a maioria ignore o facto. É um jogo de olhares, tentar observar quando as pessoas não estão a olhar para mim, para não ferir suscetibilidades e não tornar a minha presença incómoda. A minha furtividade nestes momentos pretende ser a mesma que aplico nas minhas saídas de campo para observar aves e odonatas.
Os desenhos que apresento correspondem a versões aumentadas e retrabalhadas das páginas dos meus cadernos, a partir de uma seleção dos mais de 150 desenhos realizados durante os últimos 15 meses. As frases escritas em alguns dos desenhos correspondem ao que escrevi no momento (uma conversa ouvida, uma ficção sobre a pessoa) ou a ideias que ocorrem no ateliê quando me recordo dos sítios onde desenhei. É um conjunto de cabeças anónimas, apenas um monte de linhas organizadas de modo a representarem uma determinada cabeça de cada vez, que contam as estórias que lhes quisermos sobrepor ou que as palavras provocarem.
Jorge Leal
Setembro, 2023
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Suddenly, in June 2022, in the Rocablanca bar in Madrid, entre croquetas de Cabrales y cervesas 1906, I began to draw heads, lots of heads, as if I had never seen a head in my life. All those people had an irresistible interest, my hand wouldn't stop, the pages of my sketchbooks were compulsively filled with lines. Heads in profile, from the front and three-quarters, heads half-hidden by pillars that became masks, all simplified and accentuated by the speed of my hand gestures. That four-day stay in the Spanish capital allowed me to start the series that I continue to develop in the pastry shops and restaurants I frequent.
Sitting strategically in a corner, I watch the clients arrive from my table and assess their potential for graphic translation. My interest in their heads is centered on their infinite variety and the information they give to my drawing. The only thing I share with my involuntary models is the space in which we coincide for a few minutes and an appreciation for food, coffee and alcoholic beverages. I rarely interact, I have nothing to say to them, only the drawing interests me. Some people realize that I'm drawing them, although most ignore it. It's a game of looks, trying to observe when people aren't looking at me, so as not to hurt feelings or make my presence uncomfortable. My stealth at these times is intended to be the same as that I apply on my field trips to observe birds and odonates.
The drawings I'm presenting are enlarged and reworked versions of the pages of my sketchbooks, based on a selection of more than 150 drawings made over the last 15 months. The phrases written on some of the drawings correspond to what I wrote at the time (an overheard conversation, a fiction about the person) or to ideas that occur in the studio when I remember the places where I drew. It's a set of anonymous heads, just a bunch of lines organized to represent one particular head at a time, which tell the stories that we want to superimpose on them or that the words provoke.
Jorge Leal
September 2023